a execução
Às seis e meia eu acordo. Às seis e meia eu nem sempre acordo. Principalmente no motel, a cama é mais dura, eu acordo um pouco mais quebrado que o normal. Ela acorda junto, é a primeira pessoa que não precisa de um despertador, apenas de uma respiração mais forte. Levanto com um pouco de preguiça e um muito de obrigação, e vou me arrumar porque é preciso ir pro trabalho. Deixo ela em sua casa, ela entra de fininho só de meia pra sua mãe não perceber, tem 18 aninhos, não devia passar a noite fora assim. Sua mãe estava acordada, com olheiras de mãe que se preocupa. "Como é que você some assim e desliga o celular, Gabriela? Seu irmão saiu daqui chorando pro trabalho hoje, porque você não chegava. Ele tava com o rosto todo machucado. Deve ter andado brigando na rua." "O junior? Ai meu deus!! eu vou lá falar com ele!".
A manhã em São Paulo tem aquela linha de poluição no horizonte. Me faz lembrar que eu quero mudar daqui, mas emprego como o meu não se acha em qualquer cidadezinha. Talvez no Rio, mas não me pagariam tão bem assim, e aqui o risco é menor, eu acho. E depois, tem essa coisa de metrópole, de tudoqueaconteceaconteceemsãopaulo. Eu gosto disso. Eu gosto dessa cidade. Eu vivo feliz aqui. O que eu não gosto é da Marginal parada! Quem será que foi o filho da puta que quebrou o carro e fodeu o trânsito da cidade inteira dessa vez? Bom, quando meu chefe for prefeito dessa merda eu vou mandar banir quem foder meu dia.
Entro no escritório e meu chefe ainda não chegou. Sento em minha mesa e meu mapa de trabalho já está lá, esperando por mim. Um moleque de 20 anos, pela foto é um rapaz bonito, os olhos me lembram alguém não muito distante, mas sabe como são olhos... O cara comprou um carregamento de balas pra levar pra rave, agora diz que pegaram ele no meio da estrada e roubaram tudo. Azarado de merda. Já não é problema meu, vou fazer o que me pagam pra fazer, ou meu nome entra no topo dessa lista, e foto minha é o que não falta nesse lugar.
Coloco minha luva no bolso, pego meu instrumento de trabalho dentro da gaveta, acoplo o silenciador e sigo para o endereço que me passam. Na Paulista? Caralho, vou ter que atirar na cabeça de um filho da puta no meio da cidade, em dia comercial? Quem foi o merda que planejou isso aqui? Ligo pro André, que a esta altura deve ainda estar tomando um uísque nada barato na Love Story, quase meio-dia e o cara ainda tá na balada arrumando puta pra comer? André atende o telefone:
- Segura essa garrafa aqui, meu amor. Guilherme! Você que tá no escritório. Tá escrito repóter aí na tua mesa?
- Que?
- Tá ou num tá escrito repóter nessa tua mesa, Guilherme?
- Claro que não!
- Tá escrito apresentador de talk show?
- Que merda é essa?
- Tá ou não tá, porra?!
- Não tá!
- E sabe por que não tá escrito repórter nem apresentador de talk show nessa porra? Porque tu não é pago pra ficar perguntando merda nenhuma! Eu tô há 16 anos nesse ramo, e há mais de 10 eu escrevo papéis igual essa buceta desse papel que tu tá aí na tua mão. Chega no endereço que tá escrito na hora que tá escrito que vai dar tudo certo, daí! Faz a porra do jeito que eu escrevi que é pra fazer, sacou qual é que é? Eu planejo a merda toda, tu só tem que executar! É por isso que não tá escrito repórter nessa porra, então vê se num fode, seu pau no cu!
- Tá bom, André. foi m...
- *clang*
É, me resta executar essa merda e confiar nesse filho da puta... Delta busniess center? Às 11h47 eu entro no elevador, cumprimento a ascensorista e peço para que me deixe no 19º andar. Saindo de lá tomo uma água no bebedouro até o relógio marcar 11h51. É quando eu seco a boca e começo a andar para a direita, em direção à escada de emergência. Desço calmamente oito lances de escada, e quatro andares abaixo estou eu. Coloco minha luva e espero o relógio dizer que passou do meio dia. A sala dele é a primeira no canto da esquerda, depois do quadro de avisos. Pelo que tá escrito, ao meio-dia todo mundo sai pra almoçar e esse garoto fica no computador pq ele gosta de silêncio. Entro na sala e vejo de longe a cabeça dele contrastando com o monitor de cristal líquido, é ele mesmo, pelas descrições. Miro, atiro e saio andando, como fui treinado a fazer. Quando ouço o som mais estridente que pode haver, o de um copo caindo no chão em pleno silêncio. Havia outra pessoa na sala! Atiro na direção sem mirar, acerto em cheio o estômago! Normalmente eu correria, mas o grito era de mulher. Era a primeira que eu matara, a sensação não era nada boa. Até hoje eu matara apenas culpados, gente envolvida com o crime, mas agora uma inocente! Volto para ver o que acabei de fazer, e vejo uma mulher ajoelhada em cima de uma poça de sangue. Meus olhos viram uma poça de lágrimas, ao ver que conhecia aquele rosto como ninguém, com os olhos de desapontamento e revelando a traição que sentia. Sem conseguir mais agüentar, enxugo suas lágrimas e termino com aquilo que restava do que mais amei em toda a vida. Ela não poderia ver meu ato de covardia que se seguiria. Nenhum de nós acordará às duas da madrugada. Nunca mais.
