Contemplando a Vida

Sexta-feira, Junho 20, 2008

a execução

Às duas da madrugada ela acorda. Às duas da madrugada ela sempre acorda. Às duas e dois ela tenta me acordar, beijando a minha nuca. Ela consegue. Finjo dormir mais um pouco pra ela continuar com aquilo, até que não consigo mais fingir nada. Tudo fica extremamente real e a noite que só conhecia a tranqüilidade volta a conhecer ação, pela terceira vez.

Às seis e meia eu acordo. Às seis e meia eu nem sempre acordo. Principalmente no motel, a cama é mais dura, eu acordo um pouco mais quebrado que o normal. Ela acorda junto, é a primeira pessoa que não precisa de um despertador, apenas de uma respiração mais forte. Levanto com um pouco de preguiça e um muito de obrigação, e vou me arrumar porque é preciso ir pro trabalho. Deixo ela em sua casa, ela entra de fininho só de meia pra sua mãe não perceber, tem 18 aninhos, não devia passar a noite fora assim. Sua mãe estava acordada, com olheiras de mãe que se preocupa. "Como é que você some assim e desliga o celular, Gabriela? Seu irmão saiu daqui chorando pro trabalho hoje, porque você não chegava. Ele tava com o rosto todo machucado. Deve ter andado brigando na rua." "O junior? Ai meu deus!! eu vou lá falar com ele!".

A manhã em São Paulo tem aquela linha de poluição no horizonte. Me faz lembrar que eu quero mudar daqui, mas emprego como o meu não se acha em qualquer cidadezinha. Talvez no Rio, mas não me pagariam tão bem assim, e aqui o risco é menor, eu acho. E depois, tem essa coisa de metrópole, de tudoqueaconteceaconteceemsãopaulo. Eu gosto disso. Eu gosto dessa cidade. Eu vivo feliz aqui. O que eu não gosto é da Marginal parada! Quem será que foi o filho da puta que quebrou o carro e fodeu o trânsito da cidade inteira dessa vez? Bom, quando meu chefe for prefeito dessa merda eu vou mandar banir quem foder meu dia.

Entro no escritório e meu chefe ainda não chegou. Sento em minha mesa e meu mapa de trabalho já está lá, esperando por mim. Um moleque de 20 anos, pela foto é um rapaz bonito, os olhos me lembram alguém não muito distante, mas sabe como são olhos... O cara comprou um carregamento de balas pra levar pra rave, agora diz que pegaram ele no meio da estrada e roubaram tudo. Azarado de merda. Já não é problema meu, vou fazer o que me pagam pra fazer, ou meu nome entra no topo dessa lista, e foto minha é o que não falta nesse lugar.

Coloco minha luva no bolso, pego meu instrumento de trabalho dentro da gaveta, acoplo o silenciador e sigo para o endereço que me passam. Na Paulista? Caralho, vou ter que atirar na cabeça de um filho da puta no meio da cidade, em dia comercial? Quem foi o merda que planejou isso aqui? Ligo pro André, que a esta altura deve ainda estar tomando um uísque nada barato na Love Story, quase meio-dia e o cara ainda tá na balada arrumando puta pra comer? André atende o telefone:
- Segura essa garrafa aqui, meu amor. Guilherme! Você que tá no escritório. Tá escrito repóter aí na tua mesa?
- Que?
- Tá ou num tá escrito repóter nessa tua mesa, Guilherme?
- Claro que não!
- Tá escrito apresentador de talk show?
- Que merda é essa?
- Tá ou não tá, porra?!
- Não tá!
- E sabe por que não tá escrito repórter nem apresentador de talk show nessa porra? Porque tu não é pago pra ficar perguntando merda nenhuma! Eu tô há 16 anos nesse ramo, e há mais de 10 eu escrevo papéis igual essa buceta desse papel que tu tá aí na tua mão. Chega no endereço que tá escrito na hora que tá escrito que vai dar tudo certo, daí! Faz a porra do jeito que eu escrevi que é pra fazer, sacou qual é que é? Eu planejo a merda toda, tu só tem que executar! É por isso que não tá escrito repórter nessa porra, então vê se num fode, seu pau no cu!
- Tá bom, André. foi m...
- *clang*

É, me resta executar essa merda e confiar nesse filho da puta... Delta busniess center? Às 11h47 eu entro no elevador, cumprimento a ascensorista e peço para que me deixe no 19º andar. Saindo de lá tomo uma água no bebedouro até o relógio marcar 11h51. É quando eu seco a boca e começo a andar para a direita, em direção à escada de emergência. Desço calmamente oito lances de escada, e quatro andares abaixo estou eu. Coloco minha luva e espero o relógio dizer que passou do meio dia. A sala dele é a primeira no canto da esquerda, depois do quadro de avisos. Pelo que tá escrito, ao meio-dia todo mundo sai pra almoçar e esse garoto fica no computador pq ele gosta de silêncio. Entro na sala e vejo de longe a cabeça dele contrastando com o monitor de cristal líquido, é ele mesmo, pelas descrições. Miro, atiro e saio andando, como fui treinado a fazer. Quando ouço o som mais estridente que pode haver, o de um copo caindo no chão em pleno silêncio. Havia outra pessoa na sala! Atiro na direção sem mirar, acerto em cheio o estômago! Normalmente eu correria, mas o grito era de mulher. Era a primeira que eu matara, a sensação não era nada boa. Até hoje eu matara apenas culpados, gente envolvida com o crime, mas agora uma inocente! Volto para ver o que acabei de fazer, e vejo uma mulher ajoelhada em cima de uma poça de sangue. Meus olhos viram uma poça de lágrimas, ao ver que conhecia aquele rosto como ninguém, com os olhos de desapontamento e revelando a traição que sentia. Sem conseguir mais agüentar, enxugo suas lágrimas e termino com aquilo que restava do que mais amei em toda a vida. Ela não poderia ver meu ato de covardia que se seguiria. Nenhum de nós acordará às duas da madrugada. Nunca mais.

Sábado, Junho 07, 2008

the morning run

Ainda não amanheceu, ele levanta. Quebra seus 4 ovos gelados no copo e toma de uma vez, veste o casaco e sai para correr. É noite fria em São Paulo, e não fossem pelas padarias 24 horas, a rua estaria deserta.

O frio dai pré-manhã não é o suficiente para detê-lo. Segue no sentido sul, e depois dos 5 primeiros minutos o bairro começa a mudar de cara, demorou mas ele agora corre sempre nesse horário, graças a criar o hábito de não pensar antes de fazer, em colocar no piloto automático. Antes ele pensava, agora ele faz. A respiração ficando mais forte, o suor encharcando o moletom, a calmaria da agora manhã o encanta. As pessoas percebem o rapaz correndo e sorrindo. Ele desliga agora o ipod para ouvir os pássaros. Algumas coisas não dá pra comprar pelo itunes.

Chega ele de volta em casa, o dia vai começar. Energia é algo que não se gasta correndo, se ganha. Está pronto para sua recompensa: inicia o café da manhã. Algumas pessoas querem saber de onde ele tira tanta alegria de viver. É de dentro, ele responde para si mesmo, e sorri.

Quinta-feira, Maio 01, 2008

the night walk

Quando a mente pede por um ar fresco, só ir até a janela já não mais basta. E me ponho a caminhar no ponto mais alto da noite. Uma noite fria e fresca, como se tivesse acabado de chover mas com a vantagem do chão seco. Véspera de feriado prolongado, cidade vazia, sobra mais ar pra mim.

Não estou no lugar mais lindo de São Paulo, mas perto o suficiente para ir pra lá andando, e pra lá me vou. Tudo é novo pra mim, e experimento novamente em Higienópolis, o que havia experimentado em Moema há três anos, quando conheci aquele belo bairro. Novas ruas, novos caminhos, novas calçadas, grandes e luxuosos prédios. Aquilo é uma mansão? Que calçada larga, e que alameda arborizada! No boulevard onde moro, tal título é apenas cortesia ou memória de um passado mais verde, talvez.

O bom de andar em São Paulo é que você não entende tudo de cara. É um mistério como você vira a leste e acaba chegando num lugar que, em sua mente, ficava a oeste. A cidade distorce dimensões, alguns consideram uma maldição, eu acho graça, e sigo leve. Levo comigo apenas eu mesmo, e alguma música na cabeça. Deixei o iPod em casa, dessa vez, quero ouvir mesmo é a cidade. E ela tem muito o que dizer. Após ter lido metade da obra de Sherlock Holmes, observo as pessoas e tento inferir algo sobre a vida delas, claro que com muito menos sucesso que nosso nobre personagem. Mas o passatempo é divertido e estimula a imaginação.

É hora de voltar, é claro que não volto pelo mesmo caminho, seria um desperdício. Por isso o homem criou ruas paralelas e de mão única. Para que a volta seja um pouco diferente da ida, arejando o cérebro forçadamente, dos que se deixam aprisionar pela rotina.

Muitos dizem que eu não deveria sair para caminhar a essa hora da noite. Que estou dando sopa ao azar, que é muito perigoso! Ora, mas o que poderia haver de tão perigoso nisso? Corro o risco de roubarem os poucos reais que carrego comigo, ou talvez meu celular, ou a carteira. Quem sabe eu perca até meu tênis! Mais perde aquele que cede ao medo, porque dele já roubaram a liberdade.

Sábado, Fevereiro 02, 2008

Lanaugusta

A baladinha era meio rock meio doida, me interessa ver pessoas de estilo. Chegando antes da meianoite era de graça, mas tivemos que pagar 15 reais. Lugar descolado na augusta, gostei da atmosfera, red velvet na entressala de entrada, bacana. Antes, lá na fila, umas gringas, lugar deve estar bom.

Duas da manhã e o lugar não encheu mesmo. Não sairia daquilo: poucas mulheres, a maioria acompanhada, algumas com tanto estilo que espanta. Quando fica assim eu fico mesmo é bebendo, dançando e indo no banheiro a cada dez minutos. Quando o banheiro fica lá em cima, que era o caso, a aventura fica completa, uma escada pra descer e subir cambaleando. Eu gosto dessa parte do banheiro, porque o banheiro delas é sempre em frente ou ao lado, o que permite aquela troca de olhares e uma eventual puxada de assunto, já que a música tá mais baixa, é o nosso papel encontrar oportunidades. Homem saindo do banheiro deve ter um certo charme, que eu não sei qual é, elas ficam olhando interessadas a espera de alguém que as paquere fechando o zíper da calça... enfim.

Algumas pessoas desmaiadas, depois da minha segunda dose de caipiroska eu danço mais do que nunca, tocou David Bowie, aí eu me acabo. No final da noite consigo uma conversa pra lá de interessante com uma guria linda, falamos por tanto tempo só pra depois descobrir que ela era namorada do baterista da banda. O que não evitou que trocássemos telefones. Ela parecia 18 mas era 34, parabéns pra ela.

Obrigados a sair do lugar meio cedo por uns amigos chatos que vinham juntos, me pergunto pra onde vamos agora. Pra casa? Nem fodendo. Me distancio do grupo e trato de escolher entre um desses bares cheios de garotas de programa, a Augusta é cheia deles. Quem foi lá conhece. Escolho um, não é a primeira vez que entro. Tá bem pior do que da última, que merda. Mas tenho uns drinks pela comanda, deixa eu aproveitar. Só mulheres feias, gordas, um horror. Fico sabendo que mataram o antigo cafetão há pouco tempo e desde então tem descido o nível até chegar nisso. Passada uma meia hora vejo uma deusa no palco, dançando no ferro. Chego mais perto pra ver direito, será que não tô sonhando? Como de uma legião daquelas surgiu aquela linda mulher? E como se movimentava! Meus olhos balançavam no ritmo dos seus quadris. Eu sento bem perto dela e assisto como quem pára e aprecia uma obra de arte. Com seu tino comercial, ela olha pra mim, se aproxima e senta no meu colo. A noite valeria a pena. Meus oitenta reais já eram dela.

About Me

Eu vou planejando e improvisando, mudando a direção do meu barco conforme o vento, conforme o aroma da estação, conforme as formas que formam o horizonte que vejo. Mas eu sei onde vou. Eu sei onde vou, e sei que vou longe, aqui não fico pois fui feito pra velejar. O porto é muito seguro, é muito bonito, é muito quentinho, mas eu fui feito pra navegar no oceano. Eu me arrisco, eu caio, eu levanto, eu vivo. Eu respiro sempre até o fundo do pulmão, eu vivo cada pedacinho de tudo, sem deixar vida pra trás. Eu como a casca e o caroço. Eu grito, eu digo desatinos, eu sonho. Eu sou o vampiro que suga a energia do mundo. Eu sou o gerador, a minha energia irradia às coisas e pessoas. Eu sou individual, eu sou coletivo. Eu quero estar sozinho de vez em quando. Eu gosto da arte, aquela sensação de êxtase e deslumbramento que só a sublime arte pode causar. Eu rio muito, eu choro muito. Não gosto do quase, o quase é o mesmo que nada pra mim. Gosto das coisas que tornam o mundo especial, e são tantas as coisas, e as pessoas. Quero as pessoas especiais do meu lado, a menina charmosa que quando fala a melodia da voz entra no mesmo ritmo da batida do coração, o amigo que fala o que você não quer ouvir mas precisa, a família que dá aquela força que você não esperava.

Quero me prender, quero me soltar. Não me pegue pelo braço, não gosto que me peguem pelo braço, eu quero voar. Eu quero ir pra bem longe, só pra sentir saudade e ficar com vontade de voltar. Eu quero ir, eu quero vir, eu quero ver. Eu faço as coisas, às vezes eu penso antes, às vezes eu penso depois, às vezes eu não penso. às vezes eu acho um prédio bonito e paro pra ver, às vezes pela menina bonita. Às vezes dizem que eu sou louco, às vezes quero ser louco, pra enteder as coisas que só a loucura possibilita enxergar.

Eu vim pra mudar, eu vim pra somar, eu vim pra fazer a diferença. Eu vim pra aprender, eu vim pra apreender tudo o que é bom e belo e completo pra que se torne parte de mim. Eu vim pra vencer, mas eu não tenho medo de perder, isso é pra perdedores. O que chamam de obstáculo eu chamo de degrau. Eu também me arrependo, eu também sinto medo, eu também sinto dor. Eu também sou humano e vou errando e corrigindo, e vou acertando, e evoluindo. Porque só não muda quem já morreu. Eu morro todos os dias pra renascer mais forte. Eu corro e vou depressa porque tem tanta coisa acontecendo e eu tô perdendo tantos espetáculos. Há tantos amores que eu não vivi, tantos jogos que eu não zerei, tantas canções que nunca parei pra pensar e que são lindas de verdade, tantos livros e quadros, e poemas. Eu quero tudo, mas me contento com o muito.

Eu quero liberdade! Ah, a liberdade. É atrás dela que eu vou todo dia, é por ela que eu acordo cedo e durmo tarde. A liberdade de ser quem eu quiser, e de fazer o que quiser quando quiser, se quiser. Eu vou seguindo a felicidade, muitas vezes andando lado a lado. Eu sou feliz. Eu sou o Luis Fernando Imperator, e eu vim pra isso tudo! E você, a que veio?

Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

A Missão

Lendo o livro Empreendedor Rico, de Robert Kiyosaki, li algo que ele escreveu que me tocou profundamente, e o assunto é a Missão.

Sendo oficial dos U.S. Navy (a Marinha estadunidense), ele pilotou aviões durante a Guerra do Vietnã. Disse que a sua maior lição foi que não era o indivíduo nem a equipe que estavam em primeiro lugar, era sempre a Missão. Quando se designa uma missão a um grupo e eles concordam em segui-la, ali fica implícito um acordo muito forte. A missão deve ser cumprida, não importa o que seja necessário para isso. Pode parecer um pouco bitola de militar, mas veja só o exemplo a seguir.

Na guerra, os Estados Unidos estavam lutando ao lado do Vietnã do Sul, enquanto Vietnã do Norte era o inimigo. Havia também os Vietcongs, chamados pejorativamente desta forma pelos soldados americanos, o nome oficial deles era Frente Nacional pela Libertação do Vietnã do Sul, eram guerrilheiros que viviam no Vietnã do Sul, e lutavam contra os sul-vietnamitas, ou seja, também eram inimigos.

Os EUA resolveram intervir porque o Vietnã estava às vésperas de um plebiscito para decidir se o país continuava capitalista ou virava comunista. Era estratégico que nenhum país naquela região aderisse ao comunismo pois poderia acarretar um efeito dominó, fazendo com que os EUA perdesse muitos mercados, e o deixando numa situação ruim na Guerra Fria. Enfim, os Estados Unidos foram lá meter o bedelho, e os sul-vietnamitas estavam com eles. Os norte-vietnamitas estava defendendo o que era deles de direito: a liberdade e a soberania de sua nação, isso era uma missão muito forte. Os sul-vietnamitas não tinham um ideal tão importante assim, a missão deles não era forte o bastante.

Kiyosaki (que tem este nome por ser neto de japoneses no Havaí) disse que não podia contar com os sul-vietnamitas para nada, eles eram fracos e não lutavam com tanta vontade. Afinal, estavam lutando para um ditador se manter no poder, nenhum deles tinha aquilo como um nobre ideal a ser defendido, ao contrário dos vietnamitas do norte, que lutavam pelo próprio povo. Após perceber esse detalhe, Robert quase foi preso por traição ao comentar com um superior que chegou a questionar em sua mente se os EUA estariam lutando do lado certo.

O resultado da guerra todos sabem, os Estados Unidos perderam mais de 50 mil homens e bateram retirada. Na verdade, foi assinado um acordo de paz para isso, e os EUA prometeram (para não deixar os sul-vietnamitas numa pior) continuar mandando dinheiro para que os Sul-Vietnamitas tivessem fôlego contra seus inimigos, mas nem mesmo esta promessa cumpriram. Já haviam gastado muito tempo, dinheiro e vidas.

Pois o Vietnã do Norte ganhou uma guerra contra o maior Exército do mundo, o mais bem equipado e o mais numeroso, o mais rico e o mais avançado. E tudo isso porque a missão deles era mais forte. Isso prova que quando a missão é realmente importante, e faz as pessoas terem vontade de lutar, mesmo os maiores exércitos do mundo podem ser derrubados. Portanto, falta de recursos ou habilidades não podem ser desculpa para você quando o assunto é conseguir sucesso em seus projetos ou realizar seus sonhos. Veja se sua missão é forte o bastante e estará verificando sua possibilidade de sucesso.

A missão deve ser feita para os outros, e não para você. É uma contribuição para o mundo, nunca para dentro de si mesmo. Portanto, descubra a sua forma de ajudar o mundo, e encontrará a fórmula de uma riqueza sem tamanhos, tanto espiritual quanto financeira.

Domingo, Julho 29, 2007

Êxtase

Cabe a cada qual descobrir no mundo o que se lhe encanta, e buscar pra si este quê a fim encantar-se cada vez mais. Porque quando não nos maravilhamos mais, de que vale a pena viver - se assim ouso chamar tal verbo? Prefiro viver um dia encantado do que a eternidade no desencanto de não ter por que sonhar.

Quarta-feira, Abril 25, 2007

Vai passar

Ele espera, sentado na estação de metrô, finge que está lendo um xerox que tem na mão, na verdade está apenas prestando atenção pra ver se ela passa. Ela passa quase sempre no mesmo horário naquela estação de metrô, hoje ela atrasou por algum motivo. Enquanto espera e ninguém olha ele dá uma retocada no perfume, passando mais um pouquinho, tomara que ela perceba, ele pensa. Ela é tão bonita, e não sabe seu nome, a ignorância de nomes é recíproca. Refere-se a ela como a loira do metrô, refere-se apenas a si mesmo porque não contaria nem ao amigo mais próximo o que faz, se amigos tivesse.

Ela vem vindo, ele finge que termina a leitura, como tem feito há uns 2 meses todos os dias. Chega em casa uns 50 minutos mais tarde todo dia só esperando a loira, mas seu cachorro - sua única companhia - não reclama, então fica bem. A loira passa e o coração dele já não bate mais num ritmo normal. Ele consegue uma vaga atrás dela na multidão de pessoas andando em direção à saída, não é como horário de pico, mas onze e cinquenta da noite costuma ser movimentado no metrô, cheio de gente jovem voltando da faculdade, ele acha. Estacionou atrás dela na escada rolante, sentindo seu perfume, ela com o fone de ouvido do iPod e o caderno contra o tailleur que comprime os bem-formatados seios que ele sonha tocar as mãos e os lábios todas as noites. Sentiu seu perfume de novo, perfume que depois de uma investigação numa loja do shopping descobriu que era o Flower, perfume que não sai mais de sua mente. A escada rola durante 38 segundos, e ele inspira cada momento daquilo.


Não foi hoje o dia que ela olhou pra ele, 67º dia que ela não o nota. Quando atravessa a catraca eles seguem caminhos diferentes, opostos. Desta vez ele resolveu tomar uma atitude, ou quase, em vez de seguir pelo caminho de sempre, ele vai pelo caminho dela, só pra saber onde ela vai, vale a pena. Subindo a segunda escada rolante, desta vez já não mais tão perto, ele imagina o que faria se ela o notasse. No topo da escada um rapaz de um terno escuro e gravata azul a espera, ele dá um selo na moça e anda em direção ao carro com expressão impaciente, não a trata muito bem, muito pior dso que ele a trataria, ela seria sua princesa... Ele está em choque, ela tem outra pessoa. Ela tem um namorado. Nesses dois meses essa hipótese não passara por sua cabeça em seu inocente e não-vivido modo de pensar.

Ele desce a escada rolante, compra outra passagem e entra no metrô de novo. Vazio, sentido contra-fluxo de madrugada, sabe como é. Aguarda o trem atrás da faixa amarela, como todo bom cidadão, mas mais perto da entrada para a última porta do último vagão. Coincidentemente é ali que o trem ainda imprime sua maior velocidade na plataforma da estação.

O vento é forte, sinal de que o trem tá chegando. Ele olha em direção ao túnel. A escuridão se transforma em luz em forma de dois círculos brilhantes. Tudo está muito claro agora. Ele pula nos trilhos segundos antes do trem chegar.

No dia seguinte a parede da estação ainda exibe sinais do suicídio. Sangue, ela olha. No 68º dia ela o notou.

Quinta-feira, Novembro 23, 2006

fading gaze

Hoje a luz de um olhar brilhou de novo
Ainda lembrava, disso eu não sabia
E não queria mas é tão bonito

Sei que não volta, mas bom é assim
O que era bom, agora é eterno
Guardado na memória está, blindado

Mas a memória é curta e tanta coisa
Especial vou ter para lembrar
Talvez em pouco tempo já não haja
Espaço pra o brilho de um olhar
Que agora olha só pro lado errado

Sábado, Novembro 18, 2006

Desejo

O que era aquilo? Um clarão, de repente! Havia esquecido todo o contexto, toda a conversa, tudo o que aconteceu até aquele instante. Estava surpreso e estava indignado. Como ela podia dar um tapa na cara dele? Esperava tudo dela naquele momento, mas aquilo não. Aos poucos ele voltava a entender, e sua mente recompunha a situação, era ela que não tinha entendido nada.

Não teve tempo de explicar que a garota que ela viu com ele à tarde era uma prima, amigos de infância, quase irmãos! Mas que filha da puta, ela me deu um tapa! Sua consciência voltou à situação presente e podia ouvir os gritos dela agora mais altos e chorosos que antes, estava exaltada, com raiva e chateada. Não demonstrava remorso pelo tapa que acabara de dar. Mas porra, um tapa na minha cara? Essa vadia aqui, morando na minha casa, comendo da minha comida! Não fazia sentido, mas nos relacionamentos a lógica cede lugar às emoções mais que o normal.

André fez o que tinha que fazer, mandou Verônica calar a boca e instaurou um tom de voz mais forte e incisivo do que o dela. Ela se calou e ouvia suas palavras com muito respeito e agora certo assombro. Não é assim, sua vadia! Quem você acha que é pra me tratar que nem moleque, porra? Os bravejos de André iam ficando cada vez mais altos e fortes e intimidatórios, aprendera muito com seu pai sargento, e ele dava passos pra frente enquanto Verônica recuava. Ela dava passos pra trás cada vez menores até que caiu na cama e não podia mais se esquivar, como que num ápice de raiva e revolta ele lhe apertou ambas as bochechas com uma só mão enquanto terminava de explicar toda a história, da forma menos amável possível. As lágrimas de Verônica, uma mistura de arrependimento e medo, molhavam a cama do casal.

Verônica sentiu uma sensação estranha, seus mamilos enrijecidos a fizeram perceber que todo aquele medo a fazia se sentir bem. Todos os namorados dela tinham sido muito bons, sempre rapazes muito gentis e educados. Sempre compreensivos e equilibrados. Mas André a fazia lembrar que era mulher, despertava nela a loucura, a fúria, a paixão. Viver com ele era realmente viver, e sentir a intensidade de todas as coisas, a profundidade dos sentimentos, a essência do que é humano. Era a loucura, a loucura a atraía. Queria viver essa loucura! Queria sentir essa loucura! PLAFT! Agora era André quem proferia o tapa. E neste momento de tensão e silêncio que se instaurou, Verônica, para a surpresa do moço, sorriu. Passou seus dedos e unhas compridas e bem cuidados por entre os cabelos da nuca de André, acariciando e arranhando ao mesmo tempo, e sussurrou no seu ouvido que lhe amava.

E naquela noite eles se amaram como nunca haviam se amado antes. Naquele tapa, Verônica percebeu que ela nunca seria tão feliz se continuasse vivendo na superfície. Valeu a pena!